Contador de causos
‘Lançar livro em Ribeirão é quase voltar para casa’
Foi no ano passado, quando esteve em Ribeirão, Rolando Boldrin falou de sua vida, seu trabalho e da defesa intransigente da arte brasileira
Guto Silveira
Foto: Sérgio Masson/Tribuna
“Acredito muito no meu país. Desde os sete anos de idade canto a minha terra. Canto com a paixão brasileira. Até gosto de algumas músicas estrangeiras, mas prefiro divulgar a nossa”, disse ontem (12), em Ribeirão Preto o contador de causos Rolando Boldrin, que prefere ser considerado um ator. “Sou um ator que represento a mim mesmo. Represento o Rolando Boldrin”.
O apresentador do programa Sr. Brasil, transmitido pela TV Cultura, fez show ontem no Teatro Pedro II e lançou o livro História de Amar o Brasil (144 páginas, R$ 60). “Lançar meu livro em Ribeirão Preto é quase voltar para casa. Estar aqui hoje é uma coisa até emocional para mim”, disse. Nascido em São Joaquim da Barra há 71 anos, Boldrin mantém estreita ligação com sua terra natal e com Ribeirão Preto, onde foi homenageado com o título de cidadão ribeirão-pretano.
O livro, uma produção independente, conta a história dos 50 anos de carreira do ator, que chegou a formar dupla (“uma duplinha”, diz) com o irmão para cantar em cinemas e teatros da região de São Joaquim. Já naquela época ele defendia a arte nacional. Convidado para cantar em um cinema em Santana dos Olhos D’Água (hoje Ipuã), exigiu que o filme que passaria depois do show fosse nacional. O filme, “O mundo se diverte”, tinha Oscarito e Grande Otelo
Rolando Boldrin sempre ouviu, e ainda ouve, muita música. Desde pequeno ouvia rádio e tinha sede de aprender sobre a cultura brasileira. Foi para São Paulo aos 16 anos de idade. Mas antes de chegar aos palcos foi sapateiro, garçon, frentista de posto de gasolina. Também tentou ser mecânico, incentivado pelo pai, Sr. Amadeu, que tinha uma oficina.
O pai sempre o incentivou, conta. Era ele quem levava os filhos para os shows, em um “Fordinho 1929”. Dizia que os filhos tinham que aprender um ofício, porque não tinham condições de estudar. E filosofava: “só duas profissões independem de estudo; jogador de futebol e artista de rádio”. Como Rolando não tinha aptidão para o esporte, foi ser artista. Ainda bem para o público que tem a oportunidade de conhecê-lo.
Teatro e TV
A estréia no teatro foi na peça “Os Inimigos”, de Máximo Gorki, com direção de Zé Celso Martinez Correa e ao lado de Paulo César Peréio que, coincidentemente estava ontem em Ribeirão Preto. “A música era de um menino que estava começando a carreira: Chico Buarque”, diz. Este é, aliás, um dos artistas que Boldrin quer ver em seu programa.
Na televisão ele começou a trabalhar em 1958. Mas foi em 1981, com o Som Brasil, transmitido nas manhãs de domingo pela Rede Globo, que ele se realizou. Depois de passar por outros canais, hoje ele tem um programa na TV Cultura, com a mesma “cara” do Som Brasil. Tanto um quanto outro, explica Boldrin é “feito à mão”, de forma um tanto artesanal, apesar de não abrir mão dos bons equipamentos.
Para produzir o programa, bastante centralizado no apresentador, ele diz que ouve pelo menos 200 músicas por semana, para selecionar os convidados. “Infelizmente as emissoras de rádio e televisão não se preocupam em divulgar a arte brasileira. Se tivessem essa preocupação era possível fazer pelo menos mais cinco programas similares. Tem muita coisa boa fora do programa, por falta de espaço”, diz.
Defensor intransigente da música brasileira, ele não aceitaria, por exemplo, uma guitarra em seu programa. Também não tem intenção de receber duplas sertanejas. “Não tenho nada contra guitarra ou música sertaneja, mas acho que não cabe no programa, que é bastante emocional. E não vejo como emocionar alguém com uma guitarra”. Também diz não ter nada contra pessoas, mas contra a obra.
Mas pretende receber o cantor Leonardo e a dupla Chitãozinho e Xororó. Certamente para cantar músicas raiz e sem a parafernália instrumental. Milton Nascimento, por exemplo, ele levou ao programa, mas para tocar sanfona de oito baixos. Também teve apresentação do Dominguinhos que cantou sem tocar sanfona.
Boldrin diz que hoje seu público aumentou muito e não é formado por quarentões, cinquentões ou até mais velhos. “Vendo mais discos hoje que há 25 anos”, diz. Também recebe cartas de crianças e de pessoas bem idosas, como de uma mulher de 105 anos que escreveu para ele. “Uma mulher escreveu um e-mail (porque hoje é e-mail, mas antes eram cartas) para mim dizendo que assistia ao programa acompanhada do pai, que a incentivava a ver. Hoje ela assiste junto com o filho”.
Outra coisa. Ele diz que o público que o assiste hoje na TV Cultura é mais qualificado. “Quem assiste hoje, é porque procura para assistir. Não é o público que já estava assistindo outros programas e continua a ver”. Depois que deixou a Rede Globo, Boldrin ficou cerca de dez anos fora do ar. E nem queria voltar. Tinha receio de não ser aceito. Quem diria.
Pai gostava de faroeste
Diferente das histórias que contam, Rolando Boldrin não tem nenhum ascendente artista. Ele conta que o pai era muito bem humorado, apesar de todas as dificuldades e de trabalhar até de madrugada para criar os filhos. “Ele dizia que era um pândego”, conta o filho.
Mas o seo Amadeu gostava muito de filmes de faroeste. Um dia resolveu tirar uma foto vestido de faroeste e enviou para o estúdio de cinema RKO, dos Estados Unidos, para ver se conseguia um papel em algum filme. “E os americanos, bons de marketing como são, responderam à correspondência com um telegrama dizendo: só serve para bandido”.
Serenata no cemitério
O saxofonista Bilu, de Ribeirão preto, contou uma história sobre a ida de Rolando Boldrin ao cemitério de São Joaquim em certa ocasião, logo de manhã. Mas o contador de causos corrigiu datas, horários e motivo. Disse que era um sábado, véspera do Dia dos Pais. Mas já na madrugada de domingo, por volta das 3h, resolveram fazer uma serenata para o amigo Dito Preto, que estava enterrado lá.
“Pulamos o muro e fomos até a cova do meu amigo. Começamos a cantar e sugeri que o Bilu colocasse um pulôver na boca do saxofone, para o som não ficar muito alto. Ele ficou tocando na surdina e tinha um som muito bonito”. Foi a madrugada inteira. De manhã as pessoas começaram a chegar ao cemitério e eles saíram.
Quando estavam saindo, Boldrin conta que encontrou uma sua cunhada chegando. “Ela disse que o porteiro do cemitério falou que estávamos cantando nas sepulturas, todos bêbados. Ao que ela respondeu: cada um reza do jeito que sabe”.
Texto de Solano Trindade
Divulgador da música, da literatura, do cinema, da música, do teatro, Rolando Boldrin declama poemas em seu programa, para emocionar pessoas e para divulgar os autores. No show de ontem, por exemplo, ele declamou um poeta de Solano Trindade (1908-1934). Pouco conhecido como escritor, Solano foi um dos primeiros com quem Boldrin conviveu em São Paulo.
Solano era um poeta negro que teve grande importância não por escrever para os negros. Mas por o fazer sem rancor, sem racismo. Foi o fundador do Embu das Artes, em São Paulo. Veja a força dos versos do poema “Gravata Colorida”.
“Quando eu tiver bastante pão para os meus filhos, para meus amigos, para os meus parentes, para os meus vizinhos.
Quando eu tiver livros para ler, eu comprarei uma gravata larga, bonita, e darei um laço perfeito.
E ficarei mostrando a minha gravata colorida para todos que gostam de gravata”.
Livro não tem tudo
O livro não conta tudo, mas tem bastante informação sobre a vida do artista. De acordo com Boldrin, o livro foi escrito a quatro mãos, pois contou com a colaboração de Mônica Maia, que realizou a pesquisa. “Este livro, sem falsa modéstia, ficou belíssimo, ele fecha um ciclo da minha vida”, relata Boldrin. Em suas palavras, o apresentador revela seu entusiasmo com o programa de televisão.
“Este é um projeto que me consome e me completa. Sempre persegui a idéia de que a música brasileira não é só samba, o Brasil é muito rico em ritmos”, afirma. O excesso de críticas e a falta de valorização da cultura é para Boldrin o maior defeito dos brasileiros. “Sofremos muito a influência do que vem de outros países e desvalorizamos o que é nosso”.
Além de passagens sobre sua vida escritas por ele, o livro apresenta histórias contadas por várias fotografias, a opinião de críticos é dada com depoimentos de artistas e colegas.
No Tribuna
Boldrin alegrou os leitores do Tribuna por mais de 70 domingos. Entre 2003 e 2004, assinou a coluna Paia Assada, onde contava seus “causos” com seu jeitão de caipira esperto. Ontem, ele disse que a coluna pode até voltar a ser publicada. Disse que está trabalhando em um projeto para a região que deve incluir a publicação de seus textos em jornais da região.