Mundo de Guto Silveira


02/11/2009


Esse negócio de twitter limitou nosso espaço. Por isso o blog continua firme e forte. Aqui estão textos mais extensos -alguns bem extensos. Um teste à preguiça dos leitores. E quando tiver que publicar um livro, caso ainda eu o faça, pelo menos boa parte é por aqui que publicarei. Preparem-se.

Escrito por Guto Silveira às 11h30
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Escritor tardio, mas eficienteVeríssimo

     O músico Luis Fernando Verissimo é anterior ao escritor

     Mas os leitores pensam o contrário

     Ou nem sabem do saxofonista

 

Texto: Guto Silveira

Foto: Sérgio Masson

 

Uma cadeira no palco, um microfone e uma pequena garrafa de água. No auditório uma platéia formada em sua maioria por estudantes. E Luis Fernando Verissimo não parecia à vontade. E não estava mesmo. “Confessou” antes de terminar os primeiros 20% da conversa. E bem antes, já no início do papo disse que não faria discurso, mas responderia às perguntas.

Mas era mesmo este o ambiente. Um papo descontraído e informal com os leitores (ou ouvintes). Uma conversa onde o escritor contou parte de sua vida e revelou, para surpresa de muitos, que sua carreira de músico é anterior à de escritor ou de jornalista.

Mas ainda se considera um músico amador. O único do sexteto Jazz 6, que tem apenas cinco integrantes. “Somos o menor sexteto do mundo”, brinca. Um dos músicos teve que deixar a banda, que preferiu aproveitar a fama e manter o nome.

Aliás esta história de sexteto persegue o músico (e escritor). Ele conta que aprendeu tocar saxofone aos 16 anos, quando morava nos Estados Unidos. “Na verdade eu queria tocar trompete, porque era fã de Louis Armstrong, mas onde fui estudar não tinham o instrumento para emprestar e comecei a aprender sax e a admirar Charlie Parker”, conta.

Quando voltou ao Brasil, passou a tocar em bailes e participou do grupo Renato e seu Sexteto. “Começamos mesmo em seis, mas o grupo foi crescendo e chegamos a ter onze figuras. Foi o maior sexteto do mundo”. A partir daí deixou a música de lado e ficou quase 20 anos sem tocar em um grupo. Foi quando Jorge Gerhardt o convidou para participar do grupo, onde está há 13 anos.

Verissimo disse que não se aprofundou muito em música. “Acho que eu queria brincar de jazzista”. Também afirma que não é um escritor típico, nem jornalista. Quer outra “confissão”? “Fui péssimo aluno em tudo, só ia bem em geografia, porque gostava de desenhar mapas coloridos”. Esta pode não ser a receita, mas o escritor é um sucesso.

Começo aos 30

Filho do conhecido escritor Érico Verissimo, Luis Fernando não sabia, até os 30 anos de idade (hoje tem 71), que seria escritor. Nem jornalista. Talvez nem músico. Morando no Rio de Janeiro e pai da primeira filha, ele não tinha nenhuma formação. Então resolveu voltar para a casa dos pais, em Porto Alegre.

Foi lá que começou a trabalhar como copydesk (função praticamente extinta no jornalismo de hoje), no jornal Zero Hora. Começou a escrever e logo passou a assinar uma coluna. “Aí descobri que tinha vocação para escrever. Um pouco tardiamente”. A partir do jornal publicou vários livros de crônicas e cinco romances. Todos eles, de certa forma, por encomenda. “Agora que comecei a escrever um romance por vontade própria. Mas deve demorar um pouco”.

Mas não foi assim tão ao acaso o início da carreira. Ele admite que o fato de o pai ser escritor pode ter inibido – inconscientemente – o seu início mais cedo na carreira. O fato também facilitou sua entrada no mundo literário. Foi um amigo da família, que na época representava a José Olympio Editora em Porto Alegre, quem sugeriu que as crônicas fossem reunidas em livro. Nasceu “O popular”.

Outro fator que contou favoravelmente foi seu apego aos livros. “Sempre fui um grande leitor. O ambiente em minha casa era muito propício à leitura”. E ler é o primeiro passo para quem pretende escrever. Mas Verissimo conta que hoje encontra menos tempo para ler livros. “Já não leio tanto por prazer”.

Livro x internet

A internet reduz o número de leitores. Verissimo acha que pode reduzir sim os leitores de livros, mas a leitura pode até ganhar mais adeptos. “Nós temos um preconceito a favor do livro. Temos dificuldade em perceber que a escrita pode vir de outras formas”, diz. E exemplifica. “Nunca fui de escrever muitas cartas, hoje escrevo e-mail o dia todo”, conta.

 

Escrito por Guto Silveira às 11h12
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Contador de causos

 

 

‘Lançar livro em Ribeirão é quase voltar para casa’

Foi no ano passado, quando esteve em Ribeirão, Rolando Boldrin falou de sua vida, seu trabalho e da defesa intransigente da arte brasileiraboldrin

 

Guto Silveira

Foto: Sérgio Masson/Tribuna

 

“Acredito muito no meu país. Desde os sete anos de idade canto a minha terra. Canto com a paixão brasileira. Até gosto de algumas músicas estrangeiras, mas prefiro divulgar a nossa”, disse ontem (12), em Ribeirão Preto o contador de causos Rolando Boldrin, que prefere ser considerado um ator. “Sou um ator que represento a mim mesmo. Represento o Rolando Boldrin”.

O apresentador do programa Sr. Brasil, transmitido pela TV Cultura, fez show ontem no Teatro Pedro II e lançou o livro História de Amar o Brasil (144 páginas, R$ 60). “Lançar meu livro em Ribeirão Preto é quase voltar para casa. Estar aqui hoje é uma coisa até emocional para mim”, disse. Nascido em São Joaquim da Barra há 71 anos, Boldrin mantém estreita ligação com sua terra natal e com Ribeirão Preto, onde foi homenageado com o título de cidadão ribeirão-pretano.

O livro, uma produção independente, conta a história dos 50 anos de carreira do ator, que chegou a formar dupla (“uma duplinha”, diz) com o irmão para cantar em cinemas e teatros da região de São Joaquim. Já naquela época ele defendia a arte nacional. Convidado para cantar em um cinema em Santana dos Olhos D’Água (hoje Ipuã), exigiu que o filme que passaria depois do show fosse nacional. O filme, “O mundo se diverte”, tinha Oscarito e Grande Otelo

Rolando Boldrin sempre ouviu, e ainda ouve, muita música. Desde pequeno ouvia rádio e tinha sede de aprender sobre a cultura brasileira. Foi para São Paulo aos 16 anos de idade. Mas antes de chegar aos palcos foi sapateiro, garçon, frentista de posto de gasolina. Também tentou ser mecânico, incentivado pelo pai, Sr. Amadeu, que tinha uma oficina.

O pai sempre o incentivou, conta. Era ele quem levava os filhos para os shows, em um “Fordinho 1929”. Dizia que os filhos tinham que aprender um ofício, porque não tinham condições de estudar. E filosofava: “só duas profissões independem de estudo; jogador de futebol e artista de rádio”. Como Rolando não tinha aptidão para o esporte, foi ser artista. Ainda bem para o público que tem a oportunidade de conhecê-lo.

Teatro e TV

A estréia no teatro foi na peça “Os Inimigos”, de Máximo Gorki, com direção de Zé Celso Martinez Correa e ao lado de Paulo César Peréio que, coincidentemente estava ontem em Ribeirão Preto. “A música era de um menino que estava começando a carreira: Chico Buarque”, diz. Este é, aliás, um dos artistas que Boldrin quer ver em seu programa.

Na televisão ele começou a trabalhar em 1958. Mas foi em 1981, com o Som Brasil, transmitido nas manhãs de domingo pela Rede Globo, que ele se realizou. Depois de passar por outros canais, hoje ele tem um programa na TV Cultura, com a mesma “cara” do Som Brasil. Tanto um quanto outro, explica Boldrin é “feito à mão”, de forma um tanto artesanal, apesar de não abrir mão dos bons equipamentos.

Para produzir o programa, bastante centralizado no apresentador, ele diz que ouve pelo menos 200 músicas por semana, para selecionar os convidados. “Infelizmente as emissoras de rádio e televisão não se preocupam em divulgar a arte brasileira. Se tivessem essa preocupação era possível fazer pelo menos mais cinco programas similares. Tem muita coisa boa fora do programa, por falta de espaço”, diz.

Defensor intransigente da música brasileira, ele não aceitaria, por exemplo, uma guitarra em seu programa. Também não tem intenção de receber duplas sertanejas. “Não tenho nada contra guitarra ou música sertaneja, mas acho que não cabe no programa, que é bastante emocional. E não vejo como emocionar alguém com uma guitarra”. Também diz não ter nada contra pessoas, mas contra a obra.

Mas pretende receber o cantor Leonardo e a dupla Chitãozinho e Xororó. Certamente para cantar músicas raiz e sem a parafernália instrumental. Milton Nascimento, por exemplo, ele levou ao programa, mas para tocar sanfona de oito baixos. Também teve apresentação do Dominguinhos que cantou sem tocar sanfona.

Boldrin diz que hoje seu público aumentou muito e não é formado por quarentões, cinquentões ou até mais velhos. “Vendo mais discos hoje que há 25 anos”, diz. Também recebe cartas de crianças e de pessoas bem idosas, como de uma mulher de 105 anos que escreveu para ele. “Uma mulher escreveu um e-mail (porque hoje é e-mail, mas antes eram cartas) para mim dizendo que assistia ao programa acompanhada do pai, que a incentivava a ver. Hoje ela assiste junto com o filho”.

Outra coisa. Ele diz que o público que o assiste hoje na TV Cultura é mais qualificado. “Quem assiste hoje, é porque procura para assistir. Não é o público que já estava assistindo outros programas e continua a ver”. Depois que deixou a Rede Globo, Boldrin ficou cerca de dez anos fora do ar. E nem queria voltar. Tinha receio de não ser aceito. Quem diria.

 

 

Pai gostava de faroeste

 

Diferente das histórias que contam, Rolando Boldrin não tem nenhum ascendente artista. Ele conta que o pai era muito bem humorado, apesar de todas as dificuldades e de trabalhar até de madrugada para criar os filhos. “Ele dizia que era um pândego”, conta o filho.

Mas o seo Amadeu gostava muito de filmes de faroeste. Um dia resolveu tirar uma foto vestido de faroeste e enviou para o estúdio de cinema RKO, dos Estados Unidos, para ver se conseguia um papel em algum filme. “E os americanos, bons de marketing como são, responderam à correspondência com um telegrama dizendo: só serve para bandido”.

 

Serenata no cemitério

O saxofonista Bilu, de Ribeirão preto, contou uma história sobre a ida de Rolando Boldrin ao cemitério de São Joaquim em certa ocasião, logo de manhã. Mas o contador de causos corrigiu datas, horários e motivo. Disse que era um sábado, véspera do Dia dos Pais. Mas já na madrugada de domingo, por volta das 3h, resolveram fazer uma serenata para o amigo Dito Preto, que estava enterrado lá.

“Pulamos o muro e fomos até a cova do meu amigo. Começamos a cantar e sugeri que o Bilu colocasse um pulôver na boca do saxofone, para o som não ficar muito alto. Ele ficou tocando na surdina e tinha um som muito bonito”. Foi a madrugada inteira. De manhã as pessoas começaram a chegar ao cemitério e eles saíram.

Quando estavam saindo, Boldrin conta que encontrou uma sua cunhada chegando. “Ela disse que o porteiro do cemitério falou que estávamos cantando nas sepulturas, todos bêbados. Ao que ela respondeu: cada um reza do jeito que sabe”.

 

 

Texto de Solano Trindade

Divulgador da música, da literatura, do cinema, da música, do teatro, Rolando Boldrin declama poemas em seu programa, para emocionar pessoas e para divulgar os autores. No show de ontem, por exemplo, ele declamou um poeta de Solano Trindade (1908-1934). Pouco conhecido como escritor, Solano foi um dos primeiros com quem Boldrin conviveu em São Paulo.

Solano era um poeta negro que teve grande importância não por escrever para os negros. Mas por o fazer sem rancor, sem racismo. Foi o fundador do Embu das Artes, em São Paulo. Veja a força dos versos do poema “Gravata Colorida”.

“Quando eu tiver bastante pão para os meus filhos, para meus amigos, para os meus parentes, para os meus vizinhos.

Quando eu tiver livros para ler, eu comprarei uma gravata larga, bonita, e darei um laço perfeito.

E ficarei mostrando a minha gravata colorida para todos que gostam de gravata”.

 

 

Livro não tem tudo

 

O livro não conta tudo, mas tem bastante informação sobre a vida do artista. De acordo com Boldrin, o livro foi escrito a quatro mãos, pois contou com a colaboração de Mônica Maia, que realizou a pesquisa. “Este livro, sem falsa modéstia, ficou belíssimo, ele fecha um ciclo da minha vida”, relata Boldrin. Em suas palavras, o apresentador revela seu entusiasmo com o programa de televisão.

“Este é um projeto que me consome e me completa. Sempre persegui a idéia de que a música brasileira não é só samba, o Brasil é muito rico em ritmos”, afirma. O excesso de críticas e a falta de valorização da cultura é para Boldrin o maior defeito dos brasileiros. “Sofremos muito a influência do que vem de outros países e desvalorizamos o que é nosso”.

Além de passagens sobre sua vida escritas por ele, o livro apresenta histórias contadas por várias fotografias, a opinião de críticos é dada com depoimentos de artistas e colegas.

No Tribuna

Boldrin alegrou os leitores do Tribuna por mais de 70 domingos. Entre 2003 e 2004, assinou a coluna Paia Assada, onde contava seus “causos” com seu jeitão de caipira esperto. Ontem, ele disse que a coluna pode até voltar a ser publicada. Disse que está trabalhando em um projeto para a região que deve incluir a publicação de seus textos em jornais da região.

Escrito por Guto Silveira às 10h36
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03/08/2008


Oração de jornalista

Caros, transcrevo aqui um artigo publicado no jornal Tribuna, de Ribeirão Preto. Escrito pelo criativo Jotaele Júnior, a oração é um achado. Singular.

PAPO 10



JOTAELEJUNIOR







Eu estive pensando! Existem orações para quase todas as situações e para várias profissões. Como nunca vi uma oração do jornalista, resolvi criar uma que deverá ser dita todas as manhãs, em voz alta e com muita fé. Se alguém perguntar quem criou, não tem necessidade de me citar, porque jornalista não é obrigado a revelar suas fontes. Assim que acordar, o que com certeza não deve ser muito cedo, antes ou depois de se sentar no vaso sanitário, porque durante não seria muito apropriado, diga assim: Senhor ajude-me a não cometer erros ortográficos e gramaticais, mas se eu os cometer, que o revisor os perceba, se o revisor não os perceber, que o leitor não os perceba, mas se isso acontecer, que não escreva para o jornal criticando, porém, se isto se efetivar, que sua carta e e-mail também venham com erros do mesmo naipe. Permita também, Senhor, que as coisas mais importantes aconteçam durante o dia para que eu possa fechar o jornal no horário normal, sem ter que substituir notícias na última hora, quando a edição já está ou esteja prestes a ir para a gráfica. Não peço um furo todo dia, mas pelo menos uns três por semana seriam de bom tamanho. E aproveito para lembrar que já faz umas três semanas que não consigo nenhum. Não peço catástrofes, chacinas e escândalos todos os dias (alias, seria ótimo se nunca ocorressem), mas que os acontecimentos saiam daquele marasmo de sempre. Ajudaria muito, Senhor, se quando tiver necessidade de checar alguma informação, eu pudesse encontrar as pessoas certas, se não no primeiro telefonema, pelo menos antes do vigésimo. Para ajudar no meu trabalho, Senhor, faça com que a mulher do cafezinho não se esqueça de coar um novo, bem no final da tarde, para que eu não seja obrigado a tomar aquele “veneno” até de madrugada. Quando eu tiver necessidade de manifestar alguma crítica, que tenha outros motivos para isso, o que não me obrigaria a criticar, mais uma vez, os governantes e seus assessores diretos. Mas se não houver jeito e me vir obrigado a isso, que eu tenha motivos para criticar alguém de baixo escalão, no entanto, se nem isto for possível, que seja alguém do alto escalão municipal, se não for possível, que seja do alto escalão estadual, mas se tiver que ser do alto escalão federal, por favor, Senhor, faça com que o Flankin Martins (aquele mesmo, aquele que um dia foi nosso colega) não leia. E pra terminar, obrigado, Senhor, por ter permitido que eu seja jornalista (apesar dos salários), porque eu reconheço que tenho muitos pecados a pagar.

Escrito por Guto Silveira às 07h51
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03/02/2008


Incentivador da construção civil

 

Secundino Espíndola

Ele não tem diploma de engenheiro nem de arquiteto, mas ajudou a edificar Ribeirão Preto; entre suas obras está o estádio Santa Cruz, do Botafogo

 

Guto Silveira

 

Secundino Espíndola, 83 anos, é desenhista projetista aposentado que não se dá por vencido. Aposentado, ele mantém-se diante da antiga prancheta de desenhos, sempre produzindo novos projetos, desenhando novas plantas e fachadas. Sempre a lápis, com a ajuda de réguas e esquadros. Não precisaria, mas faz por diversão. Pelo gosto que desenvolveu ao longo da vida projetando prédios para Ribeirão Preto e cidades próximas e distantes.

Para identificar logo a sua vocação, ele é um dos responsáveis pela urbanização dos bairros Sumaré e Alto da Boa Vista, no final dos anos 1940. Construiu também cinco estádios de futebol, entre eles o Santa Cruz, do Botafogo. Os outros foram construídos em Franca, Limeira, Arapongas, no Paraná, e o do América, de São José do Rio Preto, onde fez um novo projeto, substituindo o que estava programado.

Quando construiu o Santa Cruz, sobre a terra que lá já existia, chegou a ser questionando, por não usar vigas de sustentação. Ele utilizou o desnível do terreno para remover terras de um lado para outro e as arquibancadas foram feitas com corte na terra. Os operários pegavam uma faixa de 20 metros, faziam os cortes das arquibancadas quando desciam. Subiam colocando os blocos e já voltavam fazendo o acabamento, o que tornou a obra muito rápida. Em um dia, 20 metros de arquibancadas eram finalizados.

Chegaram a dizer que as arquibancadas não suportariam o peso de 70 mil pessoas. Ele respondeu que não iria colocar um sobre o outro e que, por este raciocínio, as calçadas também poderiam afundar com o peso de uma pessoa. “Nunca tinha visto uma terraplenagem tão bem feita. Foi executada pela empresa do senhor Manoel Leão (Leão Leão)”. E o trabalho nem precisou ser pago. A empresa vendia a terra que sobrava dos aterros feitos.

Ele foi sócio de duas empresas, a Incorpan Incorporadora e a Domus Construtora, que chegaram a ter 600 funcionários, entre pedreiros, carpinteiros, eletricistas, engenheiros etc. Foram por suas mãos que surgiram os primeiros prédios com mais de 20 andares em Ribeirão Preto. Chegou a construir dez prédios simultaneamente na cidade.

“Não sou arquiteto. Virei arquiteto de tanto viver no meio deles. Entendo também de engenharia porque sempre trabalhei com grandes construções”, diz. Mas seus projetos são perfeitos. Tanto que mantém antigos clientes mesmo depois de aposentado há três décadas. Ele diz que hoje as empresas estão muito mais interessadas nos lucros.

Secundino conta que tudo começou quando chegou a Ribeirão Preto, em março de 1946, aos 22 anos de idade, para montar um escritório da Companhia Mogiana de estradas de ferro. Na estação ferroviária, na avenida Jerônimo Gonçalves, tomou um tilburi (carruagem de aluguel) e subiu a General Osório olhando os prédios, que achou muito feios e mal construídos. Mas quando chegou à praça XV de Novembro, encantou-se com o local.

Olhando os jardins e o teatro Carlos Gomes, pensou: “aqui tem gente que pensa”. Mas ficou maravilhado ao virar-se e ver o Teatro Pedro II. Foi ao local e pediu para visitar a parte interna. Deixaram e ele ficou ainda mais emocionado. “Era mais bonito do que é hoje”, lembra.

Mas o financiamento para as obras das estradas de ferro acabaram. O governo cortou as linhas de crédito e as obras foram interrompidas. Ele saiu da empresa e começou a trabalhar por conta própria. Mas orgulha-se de ter sido um dos funcionários fundadores da Companhia Vale do Rio Doce. Também correu o risco de ir para a guerra, mas acabou dispensado.

Fazendo projetos, Secundino diz que nunca quis atuar indevidamente como engenheiro ou arquiteto. “Sempre trabalhei com eles, sem caracterizar exercício ilegal da profissão”. Atuou porque encontrou espaço. Na época de sua chegada a Ribeirão Preto, a cidade tinha dois engenheiros (Nelson Nóbrega e Dario Guedes) e nenhum arquiteto. “Naquele tempo as coisas eram diferentes. Comecei a trabalhar aos 17 anos de idade, sempre ao lado de grandes engenheiros”.

A confiança deu ao desenhista projetista uma grande dose de audácia. “E quem não ousa, não vive. Vem aqui apenas passear. E eu ousei. Fiz projetos com a minha cabeça e a ajuda de grandes profissionais”, ensina. Projetou obras arrojadas e enfrentou resistências. “Tinha cliente que falava que se executasse a obra teria problemas com a esposa, que não aceitaria”.

Bairro Sumaré

Mas foi trabalhando que conheceu o advogado José Nilton Ferreira da Rosa. Tornou-se seu amigo e o incentivou a comprar parte de uma fazenda no alto da cidade para fazer o loteamento. A fazenda pertencia a um espanhol que concordou em vender dez alqueires. Nascia o Sumaré. A comercialização foi relativamente rápida. Mas também ali enfrentou resistência ao projetar ruas curvas. Cerca de um ano e meio depois de chegar a Ribeirão Preto, em setembro de 1947 Secundino já projetava o Sumaré.

Quando se executava o Sumaré, ele achou que a outra parte da fazenda poderia ser comprada por seu amigo advogado. Mas José Nilton demorou para se decidir. Então apareceu na cidade um advogado carioca conhecido como Rocha Lourenço. Foi esse advogado que se interessou pela área. Ele representava o empreendedor Godofredo Leite Fiúza.

“O Rocha Lourenço telefonou para o Godofredo, no Rio e ele veio ver as terras. Propuseram negócio e o dono das terras aceitou vender”. Foi então que teve início o Alto da Boa Vista e a avenida João Fiúza. O nome é uma homenagem ao pai de Godofredo, que não aceitou a sugestão de colocar seu nome na hoje valorizada avenida. Fez ainda o Jardim América, o Jardim Recreio (incluindo o colégio Vita Et Pax) e vários edifícios altos na cidade. Também foi o construtor do edifício onde funcionou por muito tempo a rádio PRA7, do empresário José Bueno.

Secundino Espíndola não é rico. Mas diz que correu o risco de ficar milionário. Depois de construir muitos prédios altos, mora em um apartamento no Jardim Paulistano quem nem possui elevador. Mas é um homem feliz com o que faz. “Não devo nada a ninguém e ninguém me deve nada”. Seu trabalho hoje é muito mais fácil. “As coisas chegam prontas à cabeça. A única dificuldade é escolher a melhor opção para executar”.

 

Vida esportiva

 

Paulistano, Secundino Espíndola foi para Vitória (ES). Viveu no mar. Teve, por essa época também uma intensa vida esportiva. Foi jogador de futebol e chegou a ser campeão estadual. Também foi duas vezes campeão estadual de tênis.

Quando chegou a Ribeirão Preto, começou a participar do Botafogo. Foi diretor do Clube e fez algumas obras no poli esportivo do clube, na Vila Tibério. “Construí piscinas e arquibancadas, dirigi reformas. Quando o Botafogo decidiu fazer o novo estádio eu fui procurado”. Foi a partir de então que fez também os outros estádios espalhados pelo país.

 

Amigo de Antonio Diederichsen

 

Entre as importantes amizades que Secundino Espíndola fez em Ribeirão Preto estava a convivência com um homem que mudou os destinos da cidade: Antonio Diederichsen. “Tomei muito café das 4 com o alemão”, recorda-se. O café das 4 era um hábito de Diederichsen. No prédio da Saldanha Marinho, onde hoje funciona uma loja de departamentos, havia uma grande mesa, no segundo andar. Era ali que os convidados do empresários tomavam café às 16 horas.

Nesse café, Diederichsen buscava conhecer melhor as pessoas para aproveitá-las em obras para a cidade. “Ele sempre escolhia alguém que pudesse fazer algo de bom para a cidade. E quem era convidado ganhava importância, porque os convidados eram bem escolhidos”. De acordo com Secundino, Diederichsen não era de falar muito. “Mas o que ele falava tinha muito peso”.

Foi Diederichsen, auxiliado por Manoel Penna e João Marzola, dois homens de confiança, quem deu injeção de ânimo a Ribeirão Preto depois que a cidade ficou desnorteada pela crise de 1929. Ele construiu o edifício Diederichsen, no centro da cidade, mesmo enfrentando oposição e crítica dos que achavam que o prédio não teria compadores. “Diederichsen fez muita coisa por Ribeirão. Em um determinado período o peso de decisões na cidade ficou nas costas dele”.

Escrito por Guto Silveira às 21h07
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À moda antiga

Fotógrafa prefere filmes, negativos, papel fotográfico, químicas de revelação. Mas também faz fotos digitais. Sem gostar muito

 

Elza Rossato

Guto Silveira

 

Ela foi praticamente a primeira fotógrafa a trabalhar em jornal em Ribeirão Preto. Foi também em Ribeirão Preto que conseguiu seu primeiro trabalho regular em jornal. Em Santos os jornais até publicavam fotos suas, mas não pagavam em nem davam crédito (o nome dela ao lado da foto).

No litoral, ela fazia muitas fotos em binóculos, na praia. Foi lá que descobriu a importância da iluminação, onde esperava horas pela luz ideal. Também descobriu o rebatedor, por acaso. Inicialmente sua blusa servia de rebatedor, sem que ela soubesse. Quando percebeu, passou a utilizar panos colocados em paus, como se fosse uma cortina, ou um varal.

No início da década de 1980, Elza Rossato aportou em Ribeirão Preto. Procurou o então proprietário do jornal O Diário, Marcelino Romano Machado, onde conseguiu emprego. Também trabalhou no Jornal do Interior. No Diário, ficou cerca de um ano e meio, mas não foi fácil, porque foi certamente a primeira fotógrafa de jornal na cidade. “As pessoas estavam acostumadas com fotógrafos, não com mulher fotografando”.

Sobre isso ela até lembra uma história engraçada. Foi contratada por Margarete Prezoto, então apresentadora na EPTV Ribeirão, para fotografar a filha dela, recém-nascida. Quando chegou na casa da cliente, ela ficou um tempo conversando na porta, sem convidar para entrar, até que perguntou: “e o fotógrafo, não veio?” Ao q  ue Elza respondeu: “Sou eu”. Inicialmente ela achou estranho, mas depois adorou e indicou a fotógrafa para várias pessoas.

As portas foram se abrindo e Elza trabalhou muito com fotografias de crianças, participou de inúmeras exposições e bienais e participou de dois livros. O terceiro está sendo impresso. Também fotografou festas, aniversários e atuou simultaneamente com cinema, em produção de filmes comerciais.

Sua vocação é para o retrato. E gosta de fotografar com filmes. Depois revelar e ampliar as fotos. Elza tem negativos perfeitos arquivados há 30 anos. “Até o cheiro do negativo é gostoso. E tem durabilidade. Não sei se a foto digital pode ser arquivada por tanto tempo”, afirma. É uma boa justificativa para demonstrar que não gosta de fotografar com câmeras digitais.

“Quando fotografo com câmera digital, sinto como se estivesse traindo alguém. Não é a mesma coisa. Até porque fotografia é a grafia da luz. Foto digital não é fotografia”, diz. Mas sabe trabalhar com as digitais também. Além de bater fotos, ela também trata as imagens em computador. Não poderia deixar de saber, sendo a diretora de fotografia do “Grupo Amigos da Fotografia de Ribeirão Preto”, formado em 200 por dissidentes do Cinefoto Clube de Ribeirão Preto.

“Mesmo quando faço fotos com máquinas digitais, não olho na hora, como todos fazem. Deixo para ver no computador. É como se fizesse a revelação”, afirma. Elza gosta de estar no meio das químicas utilizadas para revelação e ampliação de fotos. Mas estas químicas, filmes e papéis podem sumir do mercado, com o advento das câmeras digitais. Mas ela espera que durem enquanto ela viver.

“Foto digital para mim é como se fosse um almoço de domingo ou um lanche. Não é coisa para todos os dias”, afirma. E diz ter grande preocupação com a mania digital. “Antes, em um grande casamento se tirava no máximo 200 fotografias. Hoje há quem tire mil. Mas o pior é que grande parte das pessoas que tiram estas fotos, o fazem no final de semana e deletam na segunda-feira, sem deixar registros”.

Cursos e cinema

Fotógrafa premiada, Elza Rossato ministra cursos no grupo Amigos da Fotografia. Muitos alunos recebem aulas sem pagar. Também tem clientes que a procuram para fotografar. Alguns ainda da época em que chegou a Ribeirão Preto. “Fotografei crianças que hoje estão na faculdade ou já formados. E muitos ainda me procuram”, orgulha-se.

Adepta de velhas técnicas fotográficas ela prioriza sempre a luz natural. Carrega na bolsa um fotômetro para medir a luz. Gosta também de fotografar com caixas e latas. Tem, aliás, uma lata de mais de 40 anos que a acompanha. Toda pintada de negro por dentro, um pequeno furo no fundo da lata permite a entrada de luz no negativo, produzindo a foto.

Nos filmes comerciais Elza disse ter aprendido muito com pessoas de agências publicitárias, principalmente da Ético, como o Gervásio, o Osvaldo. Trabalhando com produção, chegou a dirigir figurantes e gostava muito. Chega a se emocionar quando se lembra. Em um comercial, chegou a trabalhar com 90 figurantes.

“Mas é um trabalho muito estressante, porque mexe com o ego das pessoas. A mãe quer ver o rosto da filha no filme, quando estamos gravando o comercial de um patins, por exemplo. A imagem será dos pés, não do rosto”. Cansada, ela deixou a função.

Sem a visão comercial que grande parte das pessoas tem, Elza poderia ter ganho dinheiro produzindo fotos e books das pessoas com quem trabalhava, mas não fez isso. “O que ganhei foi um aprendizado que nenhuma escola poderia me dar”.

Clubes de fotografia

Elza participa de seu quarto de fotografia. O primeiro foi o Foto Clube de Santos, que se desfez e acabou dando origem ao Foto Clube Amigo da Fotografia. Em Ribeirão Preto entrou no Cinefoto Clube, mas acabou saindo e criando, junto com outros fotógrafos, o “Amigos da Fotografia”.

Seu grande orgulho é que o clube não cobra mensalidades, ministra cursos gratuitos a quem precisa e consegue realizar inúmeras exposições fotográficas, com trabalhos premiados em bienais. Tudo feito com parcerias, ajuda de amigos, bom relacionamento com os veículos de comunicação e muito apoio da Secretaria Municipal da Cultura e do Museu da Imagem e do Som.

Os associados também ajudam com doações, com transporte e outras despesas “inerentes”. No grupo estão profissionais que não sobrevivem da fotografia. São advogados, arquitetos, engenheiros, empresários, jornalistas, estudantes etc.

 

Pesquisas e comparações

 

Para conseguir produzir os dois primeiros livros, o Grupo Amigos da Fotografia trabalhou e pesquisou muito. Foram parcerias com historiadores, arquitetos, biólogos etc. “O biólogo, embora não pareça, é muito importante no momento de estudar a vegetação e determinar o período em que foi plantada”, diz Elza. Isso permite a comparação para se determinar que uma foto é de determinado local.

O trabalho demorou vários anos e só em 2004 foi possível estabelecer as comparações de locais que existiram com as edificações de hoje. Mas o reconhecimento é uma realidade inconteste, inclusive dos parceiros. A impressão dos três livros, por exemplo, é uma doação do proprietário de uma gráfica.

Escrito por Guto Silveira às 21h06
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Um cineclubista apaixonado

Ele ganhou um apelido por timidez e o assumiu. Porque este foi o motivo do início de seu trabalho com teatro e cinema

Fernando Kaxassa

 

Guto Silveira

Muito provavelmente você nunca ouviu falar de um cineclubista Chamado Fernando José da Silva. Porque ele praticamente não existe, a não ser na vida civil. Mas vamos mudar para Fernando Kaxassa. Esse sim, Ribeirão Preto conhece. Um dos responsáveis pelos projetos do Cineclube Cauim, que ocupa a sala do antigo Cine Bristol ele é um apaixonado por cinema e teatro, onde sua vida de “agitador cultural” começou.

Foi lá em Barretos, quando Kaxassa era ainda menino pequeno. O pai tinha uma farmácia na cidade e foi lá que ele recebeu o convite para atuar em uma peça de teatro. Tinha sete ou oito anos. O diretor era Expedito Marques, que deu a ele o papel de Jesus Cristo. Foi sua primeira experiência nos palcos. Depois atuou em outras peças. “Os garotos da minha idade jogavam futebol e eu detestava, então me encontrei no teatro”, conta.

Mas Kaxassa era muito tímido para subir aos palcos. E com 12 ou 13 anos de idade (ele não guarda muitas datas) os colegas de teatro ofereciam a ele um gole de cachaça para “criar coragem”. Mas o apelido não “grudou” apenas por isso. Fernando sempre foi bom de copo. E foi nas noitadas que fez grandes amigos e conheceu parceiros para seus projetos.

Barretos tinha um movimento forte de teatro e bons nomes nascidos na cidade, como Luiz Carlos Arutim (já falecido), Luiz Gonzaga de Luca, Matinas Suzuki Jr. (hoje conhecido jornalista), Américo Rosário de Souza, teatrólogo, ator, diretor e responsável hoje pelo Teatro Municipal de Sertãozinho.

Mas era Ribeirão Preto que Kaxassa imaginava ser a grande “porta cultural” para a entrada de seus projetos. O pai vendeu a farmácia em Barretos e como ele já tinha uma irmã por aqui, resolveu buscar em Ribeirão suas oportunidades.

Boemia, amigos e parceiros

Em Ribeirão Preto, tentou entrar em algum grupo de teatro. Mas não chegou a chamar a atenção dos responsáveis pelos grupos existentes. “Eu era apenas um moleque querendo entrar em alguma peça”. Não entrou em nenhum grupo, mas caiu direto na boemia. “Foi na boemia que conheci grandes amigos, como Leopoldo Lima, Paulinho Camargo, Bassano Vaccarini, Pedro Manuel-Gismondi e Francisco Amêndola”, conta o cineclubista.

Com os novos amigos, diz ter aprendido muito. Também se aproximou de profissionais da fotografia como Toni Miyasaka. Nessa época começou a montar o Cauim, que teve início como grupo de teatro. Também naquele período foi criado o Cinefoto Clube e, depois, o Cineclube Ribeirão Preto. Tudo isso antes do vestibular.

Sim. Porque ele prestou vestibular e passou. “Prestei Sociologia na Unesp de Araraquara. Mas o curso tinha poucos candidatos. Eu só não podia zerar. Entrei na faculdade e cursei dois anos e meio, viajando todos os dias”, conta Kaxassa afirmando que não era bom aluno e só se dava bem com história. Depois descobriu que tinha dislexia.

Com esta história de estudar em Araraquara, começou a tocar também lá um cineclube. Em Ribeirão, o Cauim como teatro vivia uma agitação, com peças de teatro nas praças e escolas e a venda de panfletos de poesia e outros textos literários. Depois o grupo conseguiu salas para projetar filmes. A primeira exibição foi no antigo Cine Mirage.

Depois funcionou por dez anos onde era o Cine Windsor, onde hoje funciona o Espaço Santa Elisa. Lá foram dez anos de projeções. O Caium mudou-se ainda para outra sala da rua Lafaiete, entre as ruas Tibiriçá e Álvares Cabral, onde hoje está instalada uma igreja. Foram 12 anos lá. Agora, há cerca de cinco anos o grupo ocupa o antigo Cine Bristol, na rua São Sebastião. Hoje considerado um cinemão, com 808 poltronas, a sala já foi a menor das maiores.

Filmes e empresa

O Cauim também fez filmes.  Mais conhecido deles é Bóia Fria, que deve ser relançado em breve, em parceria com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Um deles começou a ser filmado em Barretos, mas nem chegou a ser finalizado. Uma das cenas teve que esperar quase um ano, porque teria que ser rodada dentro da Festa do Peão, que acontece no mês de agosto.

“Mas era tudo na vontade. Sem dinheiro. Com artistas participando sem cobrar, como o Arutim, que já era conhecido. Então buscamos apoios”, relembra Kaxassa. Um dos apoios veio da prefeitura de Barretos. Quando foram receber o dinheiro, o prefeito perguntou os dados da empresa, o CGC. “Eu nem sabia o que era CGC. Não tínhamos registro nenhum. Éramos anarquistas”. Aí o Cauim teve que virar empresa.

O cineclubista demonstra ter saudades da época em que o cineclube exibia filmes de arte. Aqueles que não entravam no circuito comercial. Mas hoje já não é mais possível. Para ele, quem acabou com tudo foi o governo Fernando Collor de Mello. “O Collor acabou com tudo. No governo Fernando Henrique foram oito anos sem conversa sobre o assunto. Com o Gilberto Gil – nem digo governo Lula – as coisas começaram a melhorar”.

Kaxassa conta que antes do governo Collor, o Brasil tinha 780 cineclubes, mas todos foram fechando. Os cinemas de rua também foram migrando para os shoppings e ver filme virou uma opção da elite. “O cinema era para as classes C, D, E. Agora essas pessoas nem tem como ir aos shoppings. Muito menos pagar o ingresso”.

Mas a elitização do cinema tem a culpa também dos produtores de filmes, que reduziram o número de fitas distribuídas, deixando as cidades menores sem os filmes de lançamento. “E cinema é moda. Filme é perecível. Depois de passar nas cidades maiores, os moradores das cidades da região não vão assistir ao filme. Mesmo que não tenham visto”.

Popularização

O projeto do Cauim no antigo Bristol é justamente popularizar o cinema. Já foram muitas as sessões gratuitas e a preços populares para o público em geral. Também os alunos da rede pública de ensino – todos eles – já foram ao cinema. O projeto tem patrocínio das secretarias municipal e estadual da Educação, além de apoios da Petrobrás e outras parcerias com empresas da cidade.

Agora outro projeto que começa a ganhar forma é o chamado “Melhores do Bristol”. Kaxassa já conseguiu os direitos de vários filmes que passaram naquele cinema e vai “reprisar”, com ingresso gratuito. Quem já viu tem a chance de rever. Q      uem nunca viu vai se emocionar com grandes filmes, como Tubarão, King Kong entre outros.

 

Fixação pela palavra Cauim

 

Um dia, Kaxassa leu a palavra Cauim em um livro. Ele resume seu significado como uma bebida consumida pelos índios. E é isso mesmo. Cauim era uma espécie de vinho dos indígenas tupinambás, que permitia alcançar um estado alterado de consciência induzindo a visões premonitórias e outros fenômenos para-normais.

Depois de conhecer a palavra, ele queria ter alguma coisa com nome de Cauim. Até tentou montar grupos de teatro, ainda em Barretos, utilizando o nome, mas acabava barrado por outros integrantes. Foi em Ribeirão Preto que montou seu próprio grupo e assim o batizou. “O grupo era meu, coloquei o nome que eu quis”, lembra.

 

São muitas histórias

 

Contar um pouco da história de Kaxassa não é tarefa fácil. São muitas as ações realizadas nos últimos 30 anos. Ele lembra, por exemplo, que participou da visita de Luís Carlos Prestes a Ribeirão Preto, quando o velho comunista hospedou-se na casa de Paulinho Camargo. Depois ele junto com uma “comitiva” foi ao aniversário de Prestes no Rio de Janeiro.

Lá, de tanto ouvir Vaccarini falar, foi procurar o roteirista Rubens Luchetti e descobriu que ele morava em Ribeirão Preto havia quatro anos. Conheceu Luchetti, o principal roteirista de filmes de José Mojica Marins – o Zé do Caixão -, e se tornaram grandes amigos e parceiros.

Nesta visita a Prestes, ele conta que foram os únicos a levar presente. Seu amigo Fê com quem trabalha desde o início do Cauim, fez um álbum de fotografias de papelão, com as fotos tiradas do Cavaleiro da Esperança em Ribeirão Preto.

Escrito por Guto Silveira às 21h03
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Calixto não abandona a política

A última eleição que disputou foi em 1992, candidato a vice-prefeito na chapa de Luiz Roberto Jábali, mas como bom político está sempre atento e propenso a voltar

 

Guto Silveira

 

Antônio Calixto pode ser candidato a prefeito? Pode disputar uma cadeira na Câmara Municipal? Pode ser candidato a deputado em 2010? Pode. Tudo é possível para um político que exerceu pelo menos três mandatos e deixou a política com a fama de sério, coerente e equilibrado. Que mantém a luta por um ideal. E Calixto é assim. Já esteve no MDB (depois PMDB), PDT e hoje assume o discurso do P-Sol (Partido Socialismo e Liberdade).

Em 1976 foi eleito vereador. Dois anos depois disputou a eleição para deputado estadual. Com parcos recursos financeiros, conseguiu angariar mais de 20 mil votos, mas não foi eleito. Já em 1982 foi candidato a vice-prefeito na chapa de João Gilberto Sampaio (pelo PMDB), que venceu a eleição.

Aliás aquele foi o ano do PMDB. Quem era contra a ditadura votava no partido, numa disputa em que o voto era vinculado – de governador a vereador o eleitor deveria votar nos candidatos do mesmo partido. Foi uma enxurrada de votos no país inteiro. Foi o ano da eleição de Franco Montoro para governador, com Orestes Quércia de vice.

Vencida a eleição, Antônio Calixto foi nomeado superintendente da Transerp numa época em que os trolebus (ônibus elétricos) circulavam pela cidade. Pegou uma empresa endividada, que ninguém queria. “A Transerp era uma bomba”, diz. Mas conseguiu renegociar as dívidas e ainda buscou dinheiro novo, a fundo perdido no governo estadual e linhas de financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

“Com dinheiro, todos no governo começaram a se interessar pela Transerp”, lembra Calixto. Na empresa ele estimulou a concorrência do transporte coletivo e viu angustiado a Viação Cometa desistir de participar. “Todos criticavam a Cometa. Mas era uma grande empresa. Só não fazia mais porque faltava planejamento e boa administração na Transerp. Um vereador inventava uma linha urbana e a empresa tinha que cumprir”, conta.

Mas sua vida no Executivo não durou muito. Já no primeiro ano rompeu com o prefeito João Gilberto no maior racha político visto até então na cidade. Saiu da Transerp porque o prefeito estaria colocando na empresa pública “pessoas de moral questionável”. “Um deles quando assumiu perguntou se tinha caixa dois. Eu nem sabia o que era isso”.

O rompimento rendeu manchetes de jornais por vários dias. O fato político é lembrado por muitos que acompanharam os fatos em 1983. “O prefeito também me acusou, mas não tinha como provar e eu saí por cima”, lembra. Mas como não deixou de ser vice-prefeito, criou um bom problema para João Gilberto. O chefe do Executivo deixou de tirar férias e até recusou uma viagem para a França, para que ele não assumisse a prefeitura. “Foi uma briga muita séria, mas o João continua meu amigo. Ainda hoje conversamos muito. Ele sempre telefona para mim”.

A partir de sua saída do governo municipal, ficou sem cargo público. Mas, já filiado ao PDT, ressurgiu em 1986, vencendo a eleição para deputado estadual, em uma legislatura que Ribeirão Preto elegeu cinco representantes. Além de Calixto, foram para a Assembléia Marcelino Romano Machado, Wagner Rossi, Wilson Toni e Corauci Sobrinho. Para a Câmara Federal foi eleito João Cunha. Em 1990 disputou a eleição, mas não venceu.

Candidato a vice

Novamente, em 1992, candidatou-se a vice-prefeito. Foi compor a chapa de Luiz Roberto Jábali, então no PDC, com o apoio de Welson Gasparini, que era prefeito na época. Não queria se juntar ao PDC, mas diz ter sido vencido. A chapa ficou em terceiro lugar, com cerca de 3 mil votos a menos que Antônio Palocci Filho, segundo colocado e que venceu Duarte Nogueira Filho.

Depois disso, Calixto “desapareceu” da política. Ficou com os bastidores. Certa vez chegou a dizer que para vencer uma eleição era preciso mesmo participar de mensalão. “É impossível fazer campanha. É uma disputa muito difícil com o poder econômico”, diz. Sem aparecer na mídia, Calixto não deixou de fazer política. Ainda foi filiado ao PPS, mas não gostou da prática política do partido, principalmente na eleição de 2004, quando a legenda fez coligação com o PMDB de Baleia Rossi.

Nem poderia. Em seu mandato de deputado estadual, foi um opositor do governo Quércia que impunha respeito. “Era eu e mais 10 do PT. Tinha mais dois do PDT que não faziam oposição”, lembra. Chegou a ser convidado a se filiar ao PT, mas não foi. Foi um dos defensores do fim da aposentadoria para deputados e acabou sendo ele próprio o prejudicado. “Foi uma luta válida, mas os corruptos não se preocupam com a aposentadoria, porque pegam dinheiro de outras formas”, salienta Calixto.

Agora ele está no P-Sol e não descarta a possibilidade de uma candidatura. O partido quer que ele dispute, mas já informou que não tem tempo para uma campanha. Falta também a importante estrutura partidária, já que a legenda tem hoje cerca de 100 filiados em Ribeirão Preto. “Mas picareta não entra no partido. As filiações são muito bem avaliadas”.

Em função destes fatores, ele considera a viabilidade de uma candidatura muito pequena. Mas acredita na possibilidade de sucesso de alguns filiados que devem ser candidatos, como Antônio Cassoni, Emilson Roveri e Dante Veloni, que ele levou do PPS para o P-Sol.

Professor e advogado

Hoje Calixto é professor universitário de direito e da rede pública, na disciplina de história. Também advoga, mas tem a fama de ser um péssimo cobrador de honorários. Ele reconhece que não tem mesmo coragem de cobrar o que vale o trabalho feito. Sempre reduz, depois de pensar alguns minutos, o valor inicialmente imaginado. E assim vai pensando e diminuindo. Se o cliente é pobre, acaba nem pagando o serviço.

Escrito por Guto Silveira às 21h01
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O “despertador” de prefeitos

 

 

Ele comanda há 42 anos um mesmo programa de rádio, mas fala no microfone há quase 60 anos, desde os 13 anos de idade.

 

“Acorda prefeito”. A frase é famosa na boca do radialista Antônio Carlos Morandini, que aos 64 anos de idade mantém no ar um dos programas radiofônicos mais antigos do País – senão o mais antigo – apresentado pela mesma pessoa, o Larga Brasa, que completa 42 anos no próximo dia 10 de maio. As duas palavras misturam crítica e ironia, como se o prefeito ainda estivesse dormindo. E servem também como alerta.

A curta frase é sempre dita quando um problema perdura sem que a administração encontre uma solução. Serve também para alertar secretários municipais, dirigentes de autarquias e assessores próximos ao prefeito que administra a cidade na época. Não é um jargão de oposição, porque é dito sempre que é necessário.

Morandini começou a trabalhar em rádio aos 13 anos de idade. A maior parte de sua vida passou dentro da Rádio 79, onde hoje apresenta seu programa, de segunda a sexta-feira, das 6h às 9h30 da manhã, sempre ao vivo, com participações de repórteres nas ruas da cidade, notícias policiais e entrevistas feitas por ele, por telefone.

O Larga Brasa até já passou por outras emissoras de rádio da cidade, mas voltou à emissora que o iniciou, em 1966. Também já teve outros apresentadores que acompanharam Morandini. O principal deles foi Wilson Toni, que também trabalhou de repórter do programa. Morandini também já freqüentou muito as ruas em busca de notícias. “Já gravei um tiroteio na esquina das ruas São José e Lafaiete. Era uma loucura ficar próximo do fogo cruzado gravando o som dos tiros”, lembra.

Hoje seu trabalho é mais dentro do estúdio, como apresentador. Mas o sangue de repórter segue nas veias. Nunca deixa de perguntar, de se informar. Por telefone ou com o entrevistado dentro da emissora, Morandini faz várias entrevistas todos os dias. É ali que ouve secretários, vereadores, delegados, juízes, dirigentes de entidades, lideranças políticas, promotores, juízes e tantas outras pessoas que têm algo a informar.

Prestação de serviços

Hoje o radialista Morandini é o único da cidade a manter um programa de jornalismo matutino em uma emissora AM. Mas já enfrentou com tranqüilidade grandes concorrentes por pontos no Ibope. O próprio Wilson Toni, com quem trabalhou, por vários anos manteve programas em emissoras concorrentes.

E quem pensa que o radialista se acomoda com a falta de concorrência engana-se. Ele mantém o programa como se estivesse disputando audiência com programas de mesmo perfil. E aposta na prestação de serviços à população. “A prestação de serviços é o caminho, porque o rádio tem condições de ajudar muita gente que precisa. Também na minha coluna (ele mantém uma coluna diária no jornal A Cidade) faço prestação de serviços e cobro providências das autoridades”, diz.

Além do rádio e do jornal, Morandini também apresenta diariamente na TV Thathi, o Larga Brasa na TV, sempre às 13 horas. Ali também entrevista pessoas, cobra soluções de autoridades e presta serviços. A diferença é a duração do programa, bem menor, e a imagem. Mas o rádio é sua primeira paixão, onde ele se sente à vontade, como se estivesse na varanda de casa.

Famosos entrevistados

Com um microfone na mão, Morandini já entrevistou grandes personalidades brasileiras, como Carvalho Pinto, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Jânio Quadros, Chico Xavier e tantos outros. Perguntado se já entrevistou Oscar Niemeyer, responde que não. Mas o paisagista Roberto Burle Marx não ficou sem falar com ele.

Ele reconhece que hoje o rádio está mais frágil. Até pela falta de profissionais e pela concorrência da TV e da Internet. “Hoje não aparecem mais jovens interessados em trabalhar em rádio”, diz. Verdade, os recém-formados estão mais interessados em emissoras de tv. “Sempre trabalhei 24 horas por dia. Quando não existia celular, eu chegava nos locais onde ia e passava o número do telefone para a emissora. Quando namorava minha mulher, eu tinha um Fusca. Se passasse algum carro de bombeiro ou da polícia eu ia atrás para buscar a notícia”, lembra.

Mas Morandini, do alto de sua experiência sabe que o rádio como prestador de serviços à comunidade é insuperável. Porque é o veículo que chega a todas as casas, empresas, automóveis com grande facilidade. Com a chegada do celular então, a velocidade do rádio é ainda maior. De qualquer lugar a notícia pode ser transmitida, sem grandes requisitos técnicos.

 

Também um hábil político

 

Paralelamente ao seu trabalho em rádio, Morandini desenvolveu uma carreira política consistente. Foi vereador por quatro mandatos, foi vice-prefeito e assumiu a Prefeitura. No curto período em que administrou a cidade, abriu as portas da Prefeitura para o atendimento público. E um de seus principais orgulhos foi ter trazido para a cidade uma unidade industrial da 3M.

Por duas vezes Morandini disputou a prefeitura. Uma delas foi em 2000, quando ficou em segundo lugar na disputa em que Antonio Palocci Filho (PT) venceu no primeiro turno. Mesmo com uma campanha, segundo ele, muito mais pobre que a do vencedor, sua candidatura incomodou. Depois, foi candidato a vice-prefeito em 2004 e teve um infarto no meio da campanha.

A partir daí, Morandini abandonou de vez a vida pública. Nem é mais filiado a partido político. “Quero cuidar da minha saúde e da minha família. E também posso fazer muito pelas pessoas trabalhando em rádio e tv”, diz. Mas ele não está distante da política. Mantém contatos próximos com as principais lideranças, elogia quando considera necessário e critica sem subterfúgios quando acha que este é o caminho.

Além de vereador e prefeito interino, Antônio Carlos Morandini dirigiu a Cohab, a Ceterp (quando a empresa era municipal) e foi secretário municipal do Bem-Estar Social (hoje a secretaria tem nome de Assistência Social). Foi durante sua gestão na secretaria que foi criada a Cetrem (Centro de Triagem de Encaminhamento do Migrante e Itinerante e Morador de Rua). “Na época o Toni (Wilson Toni) era secretário estadual e ajudou muito”, afirma Morandini.

Na Cohab, ele conseguiu a construção de vários conjuntos habitacionais na cidade. Época do extinto BNH (Banco Nacional da Habitação), Morandini abriu caminhos em Brasília que renderam a construção de milhares de unidades habitacionais na cidade. Na Ceterp, desmontou um esquema de retomada e venda de telefones que era feita por funcionários que conseguiam vantagens financeiras.

Já na Secretaria foi acusado de enviar pedintes de Ribeirão Preto para Campinas. Ele explica que na verdade não enviava, mas devolvia os migrantes que eram mandados de Campinas, de trem, para Ribeirão. “Montamos um trabalho para empregar os que tinham profissões com vagas na região, inclusive com ação junto a usinas. Mas os que não se encaixavam em nenhuma profissão com demanda na região nós levávamos de volta para a origem”, conta Morandini.

Escrito por Guto Silveira às 21h00
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02/02/2008


Apaixonado por um edifício

Dentista aposentado, ele tem cinco casas alugadas em Ribeirão Preto, mas paga aluguel para morar em um pequeno apartamento. É pura paixão

 

Dentista aposentado, João Correa tem 76 anos de idade. Já trabalhou na prefeitura e no antigo INPS (hoje INSS – instituto o nacional do seguro social). Moradora em Ribeirão Preto desde 1951 este homem, vindo de Igarapava, vivenciou muitos fatos em nossa cidade. Trabalhou com 8 prefeitos de diferentes, desde a época do coronel Condeixa Filho, no início dos anos 50.

Na prefeitura, ele foi o oficial de gabinete, o que hoje equivale a ser secretário municipal de governo. Por dezenas de vezes teve que representar o prefeito em festas, inaugurações, solenidades e até velórios. Ele lembra, por exemplo, do velório da sinhá Junqueira. “Tinha muitas carruagens, muitas coroas de flores, vindas de várias partes do país. Por que na época a Usina Junqueira, em pegar a palavra era uma grande potência”, diz o dentista aposentado.

Como todas essas ocupações, João Correa poderia se apaixonar por muitas coisas. Por mulheres, carros, motos, flores, árvores e até por uma cidade inteira. Mas escolheu se apaixonar por um edifício. O Antônio Diederichsen, um prédio antigo que completou 71 anos de idade no último dia 20. É uma paixão não muito antiga, mas fervorosa. Ele se dá ao luxo, por exemplo, de saber tudo sobre o prédio. Tamanho, número de salas, quantidade de apartamentos e até a metragem dos corredores. “São 150 metros lineares entre as ruas General Osório, Álvares Cabral e São Sebastião”.

Foi essa paixão que levou o dentista aposentado a alugar um apartamento de sala e cozinha e quarto no antigo edifício. Apesar de ter cinco casas alugadas, é lá que João Correia se sente tranqüilo. “Isso não me mudo daqui por nada. Aqui eu tenho segurança, tranqüilidade e muitas amizades.”

Seu apego pelo prédio tanto, que ele se tornou um síndico voluntário do edifício. Todos os dias ele dá expediente em uma pequena sala logo depois da portaria. Ali ele informa pessoas que buscam salas ou apartamentos para alugar, conversa com amigos e, de vez em quando, atende jornalistas.

Mas sua transferência para o prédio teve um forte motivo. Assaltado por três vezes, chegou a ficar traumatizado com o último assalto. Foi então que buscou na tranqüilidade do edifício Diederichsen um lugar para morar. Isso foi há oito anos. A partir de então começou a estudar profundamente o prédio inaugurado no dia 20 de dezembro de 1936.

Orgulhoso, ele mostra em um painel improvisado, vários nomes de pessoas que estão na fila de espera para alugar um apartamento no prédio em que mora. “Não há um só apartamento vazio. Todos estão alugados. Das salas comerciais, 98% estão alugadas. As 14 lojas no térreo também estão ocupadas. E hoje o prédio dá lucro, mas já teve época em que deu prejuízo”, comenta.

Suas pesquisas sobre o prédio deu bons resultados. “Ninguém conhece o edifício como eu conheço”, diz orgulhoso. Ele diz que aquele foi o primeiro edifício multiplano (com mais de dois andares) construído no interior de São Paulo. “Não tinha Campinas, Santos, nada. O primeiro foi aqui”. Seu estudo inclui saber, por exemplo, a origem do construtor, um visionário chamado Antonio Diederichsen. “Ao contrário do que muitos pensam, ele não era alemão. Era filho de alemão, Bernardo Diederichsen, com a paulistana Ana Carolina. Mas foi na Alemanha que ele estudou. Foi para lá com oito anos de idade e voltou formado”, conta.

Depois, de acordo com João Correia, o construtor foi a administrar duas fazendas entre Batatais e Franca. Em Ribeirão Preto ele foi sócio de um alemão no antigo Banco Construtor. “Era um benemérito. Deixou este prédio inteiro para a Santa casa”, diz.

Histórias

Jair Correia viveu muitas histórias em Ribeirão Preto. Freqüentador assíduo da Câmara Municipal, ele não costumava perder as sessões. Tinha até vereador que brincava com ele. “Não é criticar os vereadores de hoje não, mas naquela época os vereadores eram muito melhores. As discussões eram mais profundas e os projetos tinham muito maior abrangência”, recorda-se.

Depois de assistir a muitas sessões ele até escolheu seus vereadores preferidos, pelos projetos, discursos e discussões: eram Antônio Rios e Orlando Jurca, que chegou a assumir o lugar do prefeito, quando era presidente da Câmara. O dentista aposentado também gostava da atuação do jornalista, ex-vereador e ex-deputado Luciano Lepera. E não se esquece de elogiar a atuação do professor de economia Antônio Vicente Golfeto quando este era vereador.

Era ainda um grande ouvinte de rádio. Ficou amigo de Sebastião Porto, Fuad Cassiz e outros grandes radialistas que passaram por Ribeirão Preto. Também gostava de programas de auditório na antiga rádio, onde assistia a shows de cantores populares.

Hoje João Correa, de seu apartamento, tem uma visão privilegiada do Centro da cidade. Pode até ver quem está tomando chopp no Pingüim. Também assiste de sua janela a grandes apresentações e manifestações na esplanada do Teatro Pedro II. Mas ele sabe que nada se compara aos atos oficiais de antigamente que se transformavam em grandiosas festas.

Entre estes atos oficiais especiais ele inclui a inauguração da Faculdade de Medicina da USP, que se transformou em um grande acontecimento, e a visita do então presidente Juscelino Kubtscheck. “Foi uma verdadeira festa, no prédio que pertencia à empresa Cafecram, na avenida Bandeirantes”, relembra.

Mas era justamente em função da novidade. Quando um presidente ou um governador passava pela cidade, naquela época, era mesmo um grande acontecimento. “As pessoas ficavam ansiosas esperando o dia da visita”, diz.

Escrito por Guto Silveira às 21h48
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Adversário leal do Pelé

Foram 20 anos entre quatro linhas. Várias partidas marcando o principal atacante do futebol brasileiro. Mas sempre leal, Píter foi escolhido pelo próprio Pelé como seu melhor marcador

 

Guto Silveira

 

Se você é comercialino e acompanhou o futebol nos anos 60 pode até conhecer o Eurípedes Fernandes. Mas esse nome costuma ser familiar apenas mesmo para familiares. Já quando se trata do Píter, hoje com 67 anos de idade, a grande maioria dos comercialinos com cerca de 60 anos de idade lembra. Até os mais novos, por ouvir falar ou ler sobre o quarto zagueiro que ficou famoso por marcar o principal atacante de sua época: O também pouco conhecido como Edson Arantes do Nascimento, nome de batismo do santista Pelé.

Píter começou a jogar futebol profissional no América de São José do Rio Preto, aos 16 anos de idade. Antes disso o jogo era mesmo na Usina Junqueira, em Igarapava, onde morava. Por quatro anos ele representou o América. Em 1960 chegou a Ribeirão Preto para jogar no Comercial, clube que o empregou por 13 anos e resistiu a pelo menos cinco boas propostas de venda; quatro do Santos e uma do Penharol. “A diretoria dizia que eu era inegociável”.

“O Comercial não aceitava vender meu passe e de colegas como Carlos César, Jair Bala e Amauri. Por isso fui ficando no clube”, conta Píter. Depois do alvinegro ribeirão-pretano, o zagueiro ainda foi para o Atlético Goianense, onde ficou por quase três anos. Depois do futebol foi ainda motorista de táxi, caminhoneiro e motorista particular (trabalhou por nove anos com o jornalista e radialista Wilson Toni).

Veio a aposentadoria e Píter não parou de trabalhar. Virou monitor de escolinhas de futebol da Secretaria Municipal de Esportes e hoje faz o mesmo trabalho com garotos de Ribeirão Preto na fazenda Santa Maria. Ensina o que sabe aos garotos e cobra responsabilidade. E os resultados acontecem com naturalidade. “Lá na fazenda temos pelo menos três garotos muito bons de bola. Craques mesmo”, conta o ex-zagueiro.

Bons times em Ribeirão

Na memória viva do ex-jogador estão lances memoráveis e a lembrança dos bons times que Ribeirão Preto teve no passado. Em seus 13 anos de Comercial, acumulou três títulos de vice-campeão paulista. Era uma época em que as partidas eram contra os grandes times paulistas. A cidade tinha também a seleção Come-Fogo, com os melhores de cada equipe e o “crioulo”, como era tratado por Pelé, estava lá.

Teve a oportunidade de jogar ao lado de Pelé ao atuar na seleção brasileira, disputando a Copa Sul-americana. Também junto com o Rei atuou na Seleção Paulista. Em uma partida contra a Seleção Carioca, teve que enfrentar nada menos que o experiente Garrincha. Para Píter, o jogador de pernas tortas formava com Pelé a melhor dupla de jogadores que ele viu em ação. Mesmo tendo passado maus momentos marcando os dois.

De Garrincha Píter ganhou uma dor na coluna que diz sentir até hoje. Foi justamente no jogo entre paulistas e cariocas. Os paulistas venciam por três a dois. Depois de Garrincha deixar pelo menos dois zagueiros caídos, foi a vez de Píter encarar o craque, já perto da bandeirinha de escanteio. “Ele jogou o corpo para um lado, para o outro, ameaçou chutar, mas deu um drible em mim e passou em um espaço de dois palmos, que parecia não caber ele. Ameaçou chutar de novo o goleiro foi na onda e ele tocou para o Zagalo, que empatou o jogo”, lembra Píter.

Já marcando Pelé, o ex-zagueiro ficou “engarranchado” no alambrado. Píter armou um carrinho para desmanchar a jogada do santista, mas antes que ele tocasse a bola, Pelé cortou, saiu pelo meio, driblou outro zagueiro e fez o gol. “Fui ajudado pelos torcedores a sair do alambrado”, lembra. Já de novo em campo ele foi cumprimentar Pelé. “Ele respondeu que tinha levado sorte. Qualquer outro atacante naquela hora zombaria do zagueiro, mas o ‘negrão’ era humilde e generoso”.

O trabalho de marcador do santista não era coisa fácil. “Cheguei a perder mais de cinco quilos em apenas um jogo. De tanto correr atrás e marcar”. E foram muitos os jogos. Só pelo campeonato paulista foram 13 anos, com dois jogos por ano.

Apesar de ser adversário, Píter se tornou amigo de Pelé. A amizade e o respeito eram mútuos. Tanto que o Rei foi convidado para ser o padrinho de casamento do zagueiro. Mas teve que rejeitar o convite porque o Santos excursionou pela Europa na época do casamento. “Ele telefonou avisando e, depois, mandou um telegrama”, conta Píter.

Sem faltas ou pancadas

O comercialino lembra que sempre foi leal. Nunca dava pancadas. “Eu sempre buscava atingir a bola, nunca o adversário. Por isso nunca tive cartão e nem fui expulso”. Pênaltis? Cometeu dois, um em um Come-Fogo e outro jogando contra o Corinthians, no Pacaembu. Mas este ele nem considera, porque o próprio juiz que o marcou, Armando Marques, pediu desculpa por ter marcado sem o pênalti existir.

“Dominei a bola no peito, dentro da área, e ele achou que tinha sido com a mão. Marcou o pênalti, eu reclamei. Mas o goleiro Aníbal, que tinha apelido de Pato Louco, defendeu o pênalti. Na semana seguinte jogamos em Ribeirão contra o Juventus e o mesmo Armando Marques veio apitar. Antes de começar o jogo ele veio pedir desculpas”. Na partida do falso pênalti, o Comercial venceu o Corinthians por 2 a 1, mas poderia ter terminado empatado.

Outro orgulho de Píter durante sua carreira foi nunca ter freqüentado a reserva. “Nunca fui de ficar em banco. Estava sempre jogando”. E em uma época que o futebol tinha nomes de ouro, como Djalma Santos, Vavá, Gerson, Rivelino e tantos outros. E o ribeirão-pretano estava entre eles. Jogando a favor ou contra, tentando matar suas jogadas.

Agora como professor ele busca a formação de craques e diz que Ribeirão tem muitos deles. “O Comercial e o Botafogo não precisam buscar jogadores fora de Ribeirão. É só procurar nas escolinhas que vão encontrar garotos com grande potencial”, diz. E não é mentira. O jogador Diego, por exemplo, foi aluno de Píter.

 

Amizade e disputas

 

Com Pelé, Píter viveu momentos de confronto, dentro de campo, mas cultivou a amizade do grande jogador. Chegaram a ficar em um mesmo apartamento de hotel, quando conversaram muito. “Foi naquela época que ele me disse que era uma pena o Comercial não vender meu passe para um time maior”.

O zagueiro comercialino tem também boas lembranças das disputas. Em muitas delas, evitou que Pelé marcasse gol. Mesmo em uma que o Santos venceu o Comercial por 7 a 5. “Até 4 a 4 jogamos no mesmo ritmo, sempre empatados. Depois o Santos fez três e só fizemos mais um”. Outro jogo foi na inauguração do estádio Palma Travassos. O time da casa venceu por 2 a 1.

Além dos grandes nomes, Píter conheceu ótimos jogadores com quem jogou. Dois que não esquece, como batedores de falta, são Carluci (do Botafogo) e Carlos César (do Comercial). “Foram os dois melhores batedores de falta que conheci”. E olha que o ex-zagueiro conheceu muitos batedores de falta. Entre estes o famoso Zico.

Escrito por Guto Silveira às 21h46
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Principalmente professor

Jornalista, caricaturista, pintor, advogado. Deve ter mais coisas que este homem fez ou faz. Mas prefere ser identificado como professor, profissão que exerceu até se aposentar

 

Divo Marino não gosta muito de falar de si próprio. Prefere mostrar o que faz, principalmente nos últimos tempos. Os quadros estão espalhados pelas paredes da casa. “Hoje sou pintor”, brinca. Mas isso ele faz já há alguns anos. Agora talvez mais intensamente. Mas sua vida sempre foi ensinar. Seu ofício foi lecionar. Mas sempre encontrou tempo para outras funções.

Além de professor, a profissão que também exerceu, e ainda exerce, é a de jornalista, com artigos publicados em pelo menos um jornal de Ribeirão Preto. Também faz caricaturas que são publicadas semanalmente pelo jornal Enfim. É talvez o jornalista mais velho de Ribeirão Preto. Manteve, no início dos anos 1960, o jornal semanário “A Palavra”, que durou cerca de quatro anos. “Mas sempre fui professor, porque era esta a profissão que me sustentava”, diz.

Aos 82 anos de idade ele não pára. Está sempre pintando e se informa sobre o que ocorre na cidade. Em seu currículo, publicado na segunda edição de um de seus livros – O Populismo Radiofônico em Ribeirão Preto – está registrado que ele é membro efetivo da Academia Ribeirãopretana de Letras, cadeira 29 (patrono Júlio de Mesquita Filho) – professor de Cultura Brasileira dos cursos de Letras da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Moura Lacerda e da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Barão de Mauá. Professor vitalício de Desenho Pedagógico do Instituto de Educação Estadual Otoniel Mota (decano do Conselho de Professores), advogado inscrito na OAB, licenciado em pedagogia, jornalista profissional, pintor e caricaturista.

São muitas as funções. E, embora ele evite falar, foi também Secretário da Cultura de Ribeirão Preto. “Tenho cerca de 58 anos de Ribeirão Preto e menos de quatro atuei na administração municipal. Minha vida política foi muito curta”, aponta. Mas foi em sua gestão que nasceu o Marp (Museu de Arte de Ribeirão Preto.

O Escritor

Divo Marino começou a publicar seu artigos no jorna A CIDADE, onde também publica atualmente, em 1950. Também publicou no Diário da Manhã, Diário de Notícias, Verdade, Enfim e em outros semanários. A vida de escritor começou em 1957, com a publicação do livro Desenho da Criança. Depois, em 1960, foi a vez da novela João Marangalha. Libertar a Criança Pela Arte foi outro livro, publicado em 1966. O ensaio Legislação sobre a comunicação a serviço da aldeia global é de 1972. Publicou ainda os romances Os Farsantes, 1985, A Cidade do Conde, o livro de contos Casa Modernista, 1996, e Orquídeas para Lincoln Gordon, 1998.

O romance Os Farsantes foi elogiado, mas o livro de Divo Marino mais conhecido é O Populismo Radiofônico em Ribeirão Preto, com três edições. Foi também este livro que rendeu ao professor-escritor o Prêmio Nacional Alfredo Jurzykoski, concedido pela Academia Brasileira de Letras.

Sobre o prêmio há até uma lembrança engraçada. A esposa de Divo Marino, Anice, trabalhava no jornal. Recebeu um telegrama avisando sobre a concessão do prêmio, mas ela, na pressa, apenas guardou o papel no bolso, sem verificar o que era. Dias depois, ao encontrar o telegrama descobriu que se tratava de um convite para ir à Academia Brasileira de Letras.

Claro que chegaram a pensar que era um trote. Afinal, o livro ganhou o prêmio por mérito próprio, sem qualquer inscrição em concurso algum. Um telefonema para o Rio de Janeiro confirmou que o prêmio era verdadeiro.

O professor

Em 1949, com 23 anos de idade, Divo Marino chegou a Ribeirão Preto, vindo de São Carlos. Não veio procurar emprego como muitos. Chegou já concursado, como professor catedrático. E não deixou mais a cidade. Foi aqui que fez grandes amigos, como o jurista Saulo Ramos. Também foi amigo de Leonel Brizola, esteve ao lado de Jânio Quadros e outros muitos nomes que fizeram história.

 

 

Lembranças do século passado

 

Escritor cioso de sua função histórica, Divo Marino não deixou de registrar fhashes curiosos de antes de 1963. O Populismo Radiofônico em Ribeirão Preto registra, em 26 páginas, mais de 100 tópicos sobre homens, mulheres e histórias da cidade vividas naqueles tempos um pouco distantes. Vejamos algumas:

 

“Dr. Orlando Jurca e Salomone, ambos vereadores numa ante-véspera de luta corporal que não houve, disputavam uma mesma cadeira. Um puxava o móvel para a esquerda, outro para a direita. A cadeira era da Presidência da Câmara Municipal. Os dois, o advogado e o dentista, julgavam-se presidentes da edilidade. O puxa-puxa não tinha fim. Tempo quente! Levanta-se o vereador Rios Neto, com voz tonitroante, e grita:

Senhores PRESIDENTES! Peço a palavra!

Uma gargalhada geral no plenário terminou com o incidente. A cadeira vazia voltou ao seu devido lugar. E também os ‘presidentes’...”

 

“Visando a construir o arranha-céu da ACIRP, Amim Antônio Calil, Baudílio Biagi, Antonio Agnelo Serra, Jorge Cury Neto, Walter Barilari, assessorados pelo então jovem bacharel Wilson Roselino, mourejavam dia e noite: - engenheiros, mestres-de-obras, pedreiros, meias colheres, plantas, custos, financiamentos, reuniões com os comerciantes, crises, discussões e o prédio subindo e subindo...”

 

“De pequena estatura, terno de brin caroá preto, cabelos brancos cortados à moda de Príncipe Danilo, Dr. Luiz Leite Lopes, mesmo na velhice, dirigia a vida iluminado por intensa chama interior (era um homem inquieto, sempre fazendo coisas) pelos caminhos da prestação de serviços ao próximo e à cidade. Médico dos pobres, além de fundar o nosso aeroclube, era presença atuante em todas as entidades de promoção social”

 

Escrito por Guto Silveira às 21h42
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Patrimônio da ACIRP*

A Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto já funcionou na casa de um padre. Quem conta é o assessor jurídico da entidade, Wilson Roselino, autor de outras histórias interessantes

 

Guto Silveira

 

Para se chegar à sala dele, no segundo andar do prédio da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP) é preciso tocar a campainha e passar por outras duas salas. Não é luxo. Apenas uma estrutura destinada a quem passou a maior parte da vida dentro do prédio que ajudou a construir há décadas. Na sala principal a estante está repleta de livros. Sobre a mesa também estão exemplares de constituições passadas, vários.

É ali que Wilson Roselino, 88 anos, filho do farmacêutico Lourenço Roselino e pai de quatro filhos, trabalha todos os dias. É o assessor jurídico da entidade desde 1943, ano de sua formatura na faculdade do Largo do São Francisco, em São Paulo. Hoje atua mais na parte comercial. “A ACI tem um corpo jurídico excelente”, diz o advogado.

Conversando com ele, as memórias vão e vêm. Lembra que entrou na Associação para substituir Sebastião de Moura Bitencourt, “Ele ficou rico, mudou-se para São Paulo para ser sócio de uma empresa”. Mas também trabalhou na Prefeitura, simultaneamente, primeiro no serviço de água e esgoto, depois na Ceterp, onde se aposentou aos 70 anos de idade.

Para entrar na Prefeitura “sem concurso” ele conta que foi beneficiado por uma lei de autoria de José Velloni, que permitiu aos funcionários que trabalhavam na empresa privada de água a permanecerem no emprego após a transformação em empresa pública. “Quem estava no serviço no dia 24 de dezembro permaneceu empregado”, conta.

Trabalhou então, Wilson Roselino, nas duas principais forças da cidade: ACI e Prefeitura. Atuou ao lado de vários prefeitos e diversos presidentes da Associação, sempre na área jurídica. Foi também professor de Direito Comercial por mais de 20 anos. “Hoje não há mais código comercial. Está tudo no novo código civil”, diz.

Na casa do padre

No início, a ACIRP funcionou na casa de um padre, que depois doou a área para a entidade, explica Roselino. Ele participou da comissão de construção do prédio onde hoje funciona a importante Associação. Foram tempos difíceis. Ele conta que chegou a salvar um funcionário que caiu no poço da construção do alicerce do prédio. O moço era epilético. “Depois ele ainda demandou contra nós (ACIRP), por acidente de trabalho, e ganhou a ação”, conta.

Dono de uma grande simplicidade Wislon Roselino foi amigo de importantes homens da história de Ribeirão Preto, como Antonio Diederichsen e Quintino Facci. Também foi contemporâneo, na faculdade, de importantes líderes políticos. Os ex-governadores Jânio Quadros e Franco Montoro estão entre eles. Diz que Quintino Facci o ajudou muito, inclusive financeiramente. “Eu precisava mandar dinheiro para um familiar em Londres e não tinha a quantia. Conversei com o Quintino e ele próprio foi ao banco e enviou o dinheiro”.

Mas ele se lembra muito de Diederichsen e de Amin Calil, presidente da Associação na época da construção do edifício. “O Amin sonhava alto. Tinha sempre grandes projetos”, diz Roselino. Mas enfrentou dificuldades para erguer o prédio. Como em duas construções próximas a rocha aflorava no solo, o então presidente pensou que quase nada gastaria com a fundação do prédio. Mas gastou.

“A fundação do prédio tem de 17 a 18 metros de profundidade, porque a rocha não aflorava como em outros locais”. O custo aumentou e as dívidas surgiram, suplantando o pequeno orçamento da entidade naquela época. Com fornecedores e bancos. Aqui entra na história o empresário Antonio Diederichsen, dono do Banco Construtor e autor da façanha de construir o edifício Diederichsen quando a cidade aparentemente não comportava um prédio daquele tamanho.

“Fizemos uma rifa de um carro para levantar recursos para a construção. Um dia alguém mexeu no carro, que estava em uma vitrine e acabou quebrando o automóvel. Quando Diederichsen soube do fato, mandou comprar todos os números restantes da rifa, para ajudar a Associação”.

Amigo construtor

Com Diederichsen, Wilson Roselino aprendeu a importância dos hotéis no desenvolvimento da cidade. Quando o construtor edificava o prédio onde hoje funciona o hotel Vila Real, o advogado visitava sempre a obra e andava no elevador de madeira da construção “pilotado” pelo próprio empreendedor. “Um dia ele me disse que, tendo estudado na Alemanha, aprendeu que as cidades precisam de bons hotéis para receber os viajantes e turistas, mas principalmente os viajantes, que trazem o progresso”, conta. “Foi com ele que teve início a grande rede hoteleira que existe hoje em Ribeirão”.

O advogado Roselino lembra que Antonio Diederichsen foi criticado pelas construções à frente de seu tempo. Ele lembra que até mesmo Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, escreveu um artigo criticando a atitude do construtor em edificar prédios tão grandes, como o do Hotel Central que ocupa um quarteirão de comprimento na rua Álvares Cabral.

O advogado pode não ter sido um empreendedor visionário como o amigo, mas continua a atuar na produção. Aos 88 anos ele está planejando a plantação de 3 mil pés de café na fazenda da família, em Franca, onde estão plantados 2,2 mil pés. “Só preciso arranjar o dinheiro”, brinca. Mesmo à distância (com algumas visitas) ele ainda acompanha a produção na fazenda.

Wilson Roselino quase foi para a Segunda Guerra Mundial. O que o impediu foi uma doença adquirida em um lago, onde ele nadava e remava. “A doença se chamava ameba. Um mal que deixava o doente irritado. E não tinha remédio para curar, na época. Hoje a cura é fácil. Mas muitos amigos meus foram para a guerra”, lembra.

Daquela época para hoje, muita coisa mudou. Inclusive o Direito. “As leis mudam muito, porque o Brasil é o país que mais muda a Constituição. A Constituição da Inglaterra, por exemplo, é de 1.215”, cita.

 

 

Passeios de tilburi e festa do corso

 

Nas lembranças de infância de Wilson Roselino estão os passeios de tilburi, uma charrete coberta, puxada por dois cavalos que funcionavam como táxi, na época. “Mas eu andava na rabeira do tilburi, sem pagar, quando ia levar almoço para meu pai na farmácia”. Seus filhos também passearam no tilburi, pagando. “Quando meus filhos eram pequenos eu os levava para passear, mesmo já tendo automóvel”, lembra.

Também havia os desfiles do corso, na General Osório, no carnaval. Nessa época ele ajudava o pai na farmácia, porque era um dos lugares que vendiam confete e serpentina. E também porque era divertido “trabalhar” no carnaval. “Era um trabalho meio de brincadeira. Eu gostava porque tinha o desfile para ver e muita gente na rua”.

 

Ações importantes na Associação

 

Quem pensa que Wilson Roselino está na Associação por trabalhar há muito tempo na entidade, engana-se. Foi ele, por exemplo, quem elaborou o novo estatuto da entidade, um documento que dá mais estabilidade à administração, porque exige quorum alto para se fazer qualquer mudança. Mantém também seu trabalho defendendo a entidade em ações de cunho comercial.

Além disso, é um grande defensor da Casa que o abriga há mais de 60 anos. “A ACI é muito importante para a cidade e tem que sobreviver, porque tem um grande patrimônio, congrega muita gente e é de utilidade pública, dentro da filosofia de sempre melhorar o comércio para que ela própria possa melhorar”, diz o incansável advogado da entidade.

*Wilson Roselino morreu, mas continua vivo para a história de Ribeirão Preto

Escrito por Guto Silveira às 21h40
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O amigo de Mazzaropi

Vereador por oito mandatos, candidato a prefeito de Ribeirão Preto (SP), funcionário da Antártica. E uma carreira de ator que inclui peças de teatro e 18 filmes, dez deles ao lado de Amacio Mazzaropi. É José Velloni, contador de muitas histórias também na vida real

 

Guto Silveira

 

“Um dia uma colega de trabalho da Antártica, a Isabel, pediu para podar uma árvore em frente à sua casa, na rua Padre Feijó, 782”. O início da história poderia ser de uma pessoa de 20, 30 anos de idade. Que a teria vivido poucos anos antes. Não é. Quem conta é José Velloni, 87 anos de idade, com alguns problemas de saúde, mas dono de uma memória quase infalível. O que ele conta, viveu quando era vereador. E há 25 anos deixou a Câmara Municipal. Ele credita a boa memória aos laboratórios que fez quando era ator de teatro.

Mas continuemos a história. “A moradora da casa dizia que os galhos da árvore tocavam os fios e saiam faíscas. Como a mãe ficava o dia todo sozinha em casa, elas tinham medo de algum acidente. Pedi ao prefeito para podar a árvore, mas o responsável pelo setor na Prefeitura disse que não era época de poda de árvores. Chamei dois rapazes, arranjei um serrote e uma escada pequena e eles começaram a poda às 10 horas da noite. No dia seguinte a Isabel foi me agradecer dizendo que haviam podado a árvore durante a noite”.

Histórias como estas José Velloni tem muitas. Afinal, foram oito mandatos consecutivos de vereador, sete de quatro anos e um de seis anos, de 1977 a 1982, quando foi candidato a prefeito, juntamente com Welson Gasparini e o falecido Faustino Jarruche, na única eleição em que havia sublegenda e o vitorioso era o mais votado da legenda que conseguia o maior número de votos. João Gilberto Sampaio, do PMDB, foi o prefeito eleito naquele ano, quando o voto era vinculado.

“O povo queria votar contra a revolução e o Franco Montoro foi eleito governador”, lembra José Velloni. Naquele ano, o partido usava o slogan “PMDB de ponta a ponta”, na divulgação do voto vinculado, onde o eleitor era obrigado a votar em todos os candidatos (governador, senador, deputados federal e estadual, prefeito e vereador) do mesmo partido.

José Velloni lembra que era sempre da situação, mas não era um acomodado e nem dizia amém a tudo que o prefeito queria. “Sempre fui muito independente. Votei contra, por exemplo, à transformação do Sassom em autarquia. O prefeito perdeu a votação e abandonou o projeto. Ainda bem. Hoje o Sassom atende bem a todos os funcionários públicos”. Para ele, a transformação do serviço em autarquia o enfraqueceria, porque o prefeito perderia a força sobre a direção do Sassom.

O ex-vereador lembra que os prefeitos de sua época respeitavam muito os vereadores. “Mas eu correspondia a esse respeito”. Segundo Velloni, os vereadores tinham audiências semanais com o prefeito e os problemas eram resolvidos. Caso contrário a cobrança era forte (leia box nesta página).

Hoje, José Velloni acompanha os trabalhos da Câmara Municipal “sem muita paixão”. “Antes os vereadores eram prestigiados, não só pelos prefeitos, pelos colegas e pelos eleitores. Hoje o prestígio pessoal diminuiu e há até desrespeito com a figura do vereador”. Ele, no entanto, não culpa os eleitores por essa falta de prestígio. “Os escândalos desmoralizam os políticos de uma forma generalizada”.

 

Mistura de histórias

 

Com a esposa Elisa, José Velloni teve seis filhos – cinco homens (um já falecido) e uma mulher – e todos eles passaram pelo teatro. Na política ele fez um herdeiro, o advogado Valério Velloni, que foi vereador por dois mandatos, mas desistiu da política. Outro filho, o professor e artista plástico Dante Velonni foi candidato a vereador, mas não obteve sucesso.

O ex-vereador chegou a ter três ocupações simultâneas: funcionário da Antártica, vereador e ator de cinema. Para conciliar, ele passou a exercer uma função na cervejaria que o desocupava mais cedo. De lá, seguia para a Câmara para atender a população participar das sessões. Para filmar, viajava no início da madrugada para Taubaté e voltava no mesmo dia ou no dia seguinte. Muitas filmagens ocorreram em Ribeirão Preto e região, como em São Carlos, Dourado e Ribeirão Bonito.

Foi assim que ele fez 18 filmes, dez em companhia de Mazzaropi, com quem começou no cinema. Do ator que sempre fez papéis de um jeca, ficou amigo pessoal. “Quando vinha para Ribeirão Preto, o Mazzaropi se hospedava em hotel, mas almoçava em minha casa”, diz.

E desde o começo era para ser mesmo uma grande amizade. O encontro aconteceu porque Velloni foi a São Paulo na casa de um amigo – Paulo – que também trabalhava na Antártica. Ao chegar lá esse amigo disse que Mazzaropi havia acabado de sair da casa dele. Tinha ido pedir bagaço de cevada para tratar de cavalos. “Eu admirava muito o trabalho do Mazzaropi e resolvi falar com o doutor Pupo (diretor da cervejaria) e ele disse que arranjaria o bagaço de cevada”.

Velloni foi pessoalmente dar a notícia a Mazzaropi, que o agradeceu. Ao saber de sua atuação em teatro, o ator o convidou para assistir a uma filmagem. “Assisti à filmagem e no final o Pio Zamoner, que era o diretor disse ao Mazzaropi que eu poderia fazer o papel do Dr. Irineu. Fiz o papel, o Pio gostou e chamou para os outros filmes”. Daí para a frente foram aparecendo convites não só para os filmes de Mazzaropi, mas também outros.

De Mazzaropi ele só tem boas lembranças. “Era muito honesto. Foram muitas as vezes que mandou meu pagamento em casa”. Diz também que o comediante era muito divertido e durante as filmagens costumava contar piadas que não estavam no script. “Os outros atores riam e a cena tinha que ser gravada novamente”. Mas tem tristeza também. “Nos últimos dois anos, com câncer de medula, ele ficou muito triste. Participava das filmagens, mas em seguida ia para seu caminhão que era na verdade uma casa”. Mazzaropi morreu em 13 de junho de 1981.

 

Falando com o prefeito na Alemanha

 

São muitas as histórias contadas sobre José Velloni. Algumas ele confirma, outras não desmente. O professor de economia Vicente Golfeto atribui a ele a fama de pão-duro, sovina. Mas ele devolve, dizendo que o professor também o é. “Se o José Velloni pular do décimo andar, pode pular atrás que tem coisa boa lá embaixo”, costuma dizer Golfeto. É também dele uma engraçada história de doação.

“Era véspera de eleição e algumas religiosas foram à Câmara pedir doações. A maioria dos vereadores doou o recurso que podia. Quando chegaram ao gabinete do Velloni elas receberam dele um cheque. Passada a eleição as religiosas voltaram à Câmara para agradecer e foram ao gabinete do vereador fazer uma observação. Agradeceram, mas mostraram a Velloni  que o cheque não estava assinado. De pronto ele respondeu: ‘doação comigo é assim, só no anonimato’”. Ao ouvir a história, o ex-vereador apenas sorri.

Há também histórias sérias que ele próprio conta. Uma vez pediu ao prefeito Duarte Nogueira para implantar redes de água e esgoto na Travessa Hilário, no Ipiranga. Ele marcou um dia para começar e não começou. “Fui à Prefeitura e cobrei. Já eram 17h30, mas ele afirmou que começaria ainda naquele dia. Marcou para as 20h30 uma visita ao local e me convidou para ir com ele. Em seguida convocou três auxiliares para o serviço. Quando chegamos na travessa, na hora marcada, o trabalho já tinha começado”, conta.

Outro caso aconteceu com o plantio de árvores na rua General Osório. A situação foi parecida e as árvores foram plantadas por volta de 21h30. “Eu tinha muito prestígio com os prefeitos, mas sempre correspondi à altura”. Velloni sempre brigou pelos seus eleitores. Tanto que era bom de voto. “Tinha eleitor que ia votar com o meu número escrito na mão. Em uma eleição, tive 12% dos votos da Vila Tibério”, recorda.

Essa luta em favor dos moradores rendeu outra boa história. Era final de expediente e ele tinha atendido 26 pessoas, quando chegou uma moradora para reclamar que seu pedido não havia sido atendido pelo prefeito. O vereador pegou o telefone e, na frente da moradora, discou alguns números e fingiu dar a maior bronca no prefeito pelo não atendimento. Quando desligou a mulher perguntou: “mas o prefeito não está na Alemanha?”. Ao que ele respondeu com a tranqüilidade de um artista: “e onde a senhora pensa que eu telefonei?”

Depois disso, voltou à carga e conseguiu resolver o problema da contribuinte.

Escrito por Guto Silveira às 21h36
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